
Um contexto tão comum hoje, já foi motivo de euforia, borboleta na barriga e curiosidade para mim: a ingênua necessidade de conhecer ao vivo e a cores, com áudio e tudo, um estrangeiro.
Para uma pacata cidadã de uma cidade incrustada no norte mineiro, incrustada no cerrado, nos gerais, nas caatingas, de ruas de paralelepípedo e vida pausada, muitas coisas legais e popularmente difundidas nas grandes capitais do mundo, ou em regiões bem desenvolvidas, só foram acessíveis a mim, através das 20 polegadas de uma televisão. Porém, devo avisar que se eu assistia algo no quarto de minha mãe, então, eram através de 14! Miseras 14 polegadas.
Assim, coisas tecnológicas e rotineiras para cidadãos metropolitanos se tornavam possíveis e plausíveis. Eu não achava, por exemplo, uma escada rolante coisa do outro mundo. Era algo cabível. Então, de alguma forma, achava, sim, essas coisas frívolas e comuns. Porém, o que eu não havia descoberto ainda era que o entendimento sobre o funcionamento dessas maravilhas do mundo moderno era o que realmente me causariam espanto e temor.

É como um brinquedo novo. Quando você olha a criança da propaganda manuseando-o, você pensa que é “facim, facim”, mas vai mexer para você ver! Da uma dor de cabeça... Da televisão, tudo parecia muito simples. Muito fácil. Rotineiro.
A primeira vista, escadas rolantes parecem quase que a extensão das pernas das pessoas. Estas dão um passo à frente e sobem nelas, ficam estacionadas, olhando vitrines e decorações, e quando você percebe, as pessoas já estão dando um rápido passo para delas saírem.
Sim. Mesmo olhando as vitrines, a decoração, as roupas das mulheres, o sorriso dos homens, o cérebro estava ativo para prover o rápido movimento de saída da engenhoca. É muito simples: põe um pé, o outro. Fica parado. Finge que já fez isso milhares de vezes. Kkk. Muito trivial. Quando chegar lá em cima, é só tirar um pé rápido do degrau, depois o outro, e continuar andando! Olha que gostoso, subir um andar sem fazer esforço. Foi mais ou menos isso que pensei. Mas no fundo, a sensação que me passava era a de que todas as pessoas que ali estavam, sabiam que era a primeira vez que eu ia andar de escada rolante. Imaginava elas olhando para mim e rindo. Exclamando “olha a caipira! Olha! Nunca andou de escada rolante. Kkkk”. As gargalhadas soavam altas em minha cabeça. Pensava “e se eu cair? Todos terão certeza que eu não sei mexer com esta coisa.”

Tenho que confessar a vocês. A primeira vez que andei de escada rolante, foi em setembro de 2007. Eu tinha 21 anos. Eu olhei para ela. Os degraus subindo, os degraus subindo (nossa! Agora tenho uma dúvida terrível que me consome: degraus ou degrais? Aff, isso é outra conversa. No final do texto, eu respondo).
Fiquei olhando, olhando. Criando coragem e desenvolvendo táticas de movimento mimetista: é só fazer do jeito que os outros fazem! Borboletas na barriga, borboletas na barriga! Sinto uma emoção, uma vontade de rir sozinha, ou chorar! Vou tentar, vou tentar! Não posso dizer a minha amiga que nunca andei de escada rolante. Terrível. Terrível caipira! Se pensa tão moderna! Fui!
Não nego. Na hora até tremi. Tremi igual vara verde. E agora, para sair? É... sair é mais difícil, sempre é. Mas dei um pulo rápido e saí! Nossa. Que vontade de rir! Que vontade de saltitar! De gritar bem alto: “foi minha primeira vez! Minha primeira vez!” Deixo bem claro que me refiro a

ANDAR DE ESCADA ROLANTE, para as mentes pecaminosas que queiram usar minhas frases contra mim.
Foi gostoso. Deu vontade de ficar igual criança: subindo e descendo de escada rolante!
Porém, comecei essa história para falar de estrangeiros e acabei de descrever a mim em um momento em não se refere mais a pessoa que hoje sou. Não falei de estrangeiros, mas sinto que tudo isso foi uma estrangeira quem escreveu. Muitas linhas. Os estrangeiros ficam para um outro dia. Tem mais história por aí. Quanto aos degraus, são degraus mesmo que devem ser ultrapassados para se chegar a algum lugar.