Ele saiu da padaria. Nas mãos,
uma sacola de pão. Na outra, o celular. Precisava ligar para a namorada.
Ele saiu de casa. Sem projetos de
vida, comprou uma arma. Em suas mãos, suor. Estava desesperado. Na sua cintura,
uma 3.8.
Eles se encontraram. Um deles
pediu o celular. O outro? Assustou-se. Um tiro rompeu o silêncio da manhã. O
sangue escorreu quente pela calçada. Um deles saiu correndo, desesperado. O
outro, caiu, pesado, em direção ao chão.
Aquele que correu tinha dinheiro
suficiente para pegar um ônibus. Ninguém sabia, ao certo, quem ele era. Ele
também não sabia, ao certo, quem era. Subiu no ônibus e mudou-se para outra
cidade.
Aquele que caiu foi socorrido.
Entrou em coma. Após 2 anos, acordou. Tentou entender o que havia se passado.
Estava atordoado. Tentou sentir as pernas. Não conseguiu. Estava feliz por
estar vivo. Estava despedaçado por sentir-se injustiçado. Até aquele momento,
seu algoz não havia sido preso.
Em outra cidade, o homem resolveu
buscar um emprego. Conseguiu. No emprego, conheceu uma jovem e linda moça.
Apaixonou-se. Com a vida estável casou-se. Maria Helena nasceu. É linda.
No hospital, o homem decidiu
reconstruir sua vida. Seria uma pessoa melhor, aceitaria tudo aquilo. Acreditaria
num grande futuro. Buscaria. Encontraria a felicidade em todas as coisas boas
de sua vida. Seria feliz e pleno. Decidiu-se. Saiu do hospital. Encontrou o
abandono da namorada. O buraco na calçada, a dificuldade para mover a cadeira
de rodas. A pena dos envolvidos. Uma parca pensão governamental. A solidão.
Este homem questiona o mundo
todos os dias.
Aquele, é pleno e feliz.
(04/07/18)
