Já dizia o velho Descartes que aquele que pensa, tem ciência de sua própria existência. Em sua célebre frase Cogito, ergo sum, isto é, penso, logo, existo, este filósofo resumiu em três palavras a condição da diferenciação humana de outras espécies. Implicitamente, quem sabe, era uma inferência de nossa criatividade e capacidade de tentar moldar o mundo a nossa necessidade.
Peço, no entanto, que os ilustríssimos leitores deste texto não pensem que escrevi verdades acima. Muito menos que li grandes livros de filosofia antiga e os entendi. Não é nada disso. Ao lembrar da frase de Descartes, apenas tive um palpite sobre o que ela poderia dizer. Quem sabe, poder-se-ia chamar isso, acima, de um breve pensamento.

Legenda: Escultura O Pensador (Le
penseur) Auguste Rodin
Por outro lado, essa frase também nos permite, com nossa criatividade e brilhantíssima capacidade de pensar, criar inúmeras paráfrases (quem sabe) paródias que o Descartes deixou de ouvir: penso, logo... necessito! Penso, logo... consigo! Penso, logo... quero! Penso, logo... Sexo! Brincadeira! Porém, penso que muitos homens funcionam assim...
Bem, afora feminismos - e brincadeiras a parte. O assunto é serio. Tão sério que se comporta como síndrome.
Para chegar ao meu intento, e descrever o que me faz escrever estas rápidas linhas hoje, remoto aos meus tempos de criança, num leve feedback de minha jornada escolar para chegar a raiz que assola - se não a humanidade - a muitos que estão em uma pós-graduação de verdade: a raiz da síndrome do relativismo. 
Imagino que, talvez, essa síndrome não se instalasse em mim agora se, quando criança, ou adolescente, na escola, meus caríssimos e digníssimos professores, me lembrassem de uma coisa que nunca aprendi até um ano atrás: nada realmente é o que parece.
Deste modo, creio que eles (teachers) poderiam ter iniciado o meu aprendizado e dos demais colegas pelo ensinamento do π (Pi), número infinito, para que eu pudesse entender que o mundo não é tão simétrico, simples e claro, como ele aparenta ser em um primeiro momento. Enfim, ensinaram primeiro que 2+2 eram 4. Exatamente assim. Não há nada o que se questionar. É assim. Exato, claro, resumido. Sempre 2+2 será 4. Sempre 2+2 foi 4 e assim será até os últimos dias de nossas vidas.
O que deveria ser lembrado é que dois, mais, igual e quatro são construtos abstratos da mente humana. Não são coisas do mundo real. Apenas uma representação ou um símbolo manuseável. Tanto é que podemos ter qualquer coisa na quantidade dois e qualquer coisa na quantidade quatro e assim por diante. Porém, se eu tiver três lápis de 15 cm e um de 1cm, eu tenho 4? É... penso que isso é um pouco questionável.
Há um momento de sua vida, lá na frente, que se você continua seus estudos, exige-se que você critique. Que você faça o seu parecer. Faça uma análise. Uma descrição. Desenhe com os símbolos alfabéticos uma visão sua de um objeto exterior. Ou abstrato e interior ou exterior.
Porém, a todo tempo, o que a escola básica, mas fundamental- como o próprio nome diz, mas inserindo o ensino médio e até algumas graduações – ensina são conhecimentos que o aluno enxerga como pronto e acabado, criado por uma célebre mente humana brilhante que deve ser no mínimo inquestionável. A escola, aliás, o livro didático, escolhe uma verdade acabada para o aluno. A história do livro de História é somente uma. E quando digo uma, não me refiro ao grupo histórico representado, mas sim, a idéia que é vendida pronta e acabada. A história escrita por apenas um autor – ou uma corrente de autores. Ou em uma ordem cronológica até o último autor que é o melhor.
Atualmente dizem que Plutão não é um planeta. Será que todos os cientistas concordam unanimemente com isso? Será que antes todos concordavam que Plutão não era um planeta? Penso que isso é muito difícil. Se as mentes mais brilhantes do mundo pudessem ser unânimes com alguma coisa, mesmo que pequena, penso que nada no mundo seria tão conflitante e “indialogável” como é (um neologismozinho, aqui quem sabe, outro).
As ciências, mesmo aquelas mais exatas seguem receitas de como o mundo pode ser absolutamente organizado, mas ele não é. Toda visão é relativa e irá mudar dependente do grupo que souber angariar o discurso mais eloqüente que convença a maior parte da platéia.
Receitas nem sempre dão certo. Vejam os recalls de carros, carrinhos de bebê, peças automobilísticas ou informáticas. Esta semana tivemos recall até de cereal. Aposto que você (ou um conhecido) já comprou um produto que apresentou problema e teve que ser trocado. Isto é, nada é tão regular quanto parece.
Afora isso, quem nos garante que todo remédio contem exatamente a mesma composição? Que seus elementos mais estáveis se comportam com a finalidade de sanar doença X e não provocar Y? Quem nos garante que o Y não será provocado?
Porque sempre é o organismo que reage diferente ao remédio e nunca, talvez a hipótese, de a mesma fórmula da embalagem A não fazer o mesmo efeito da embalagem B?
Que todas as calorias informadas nas embalagens são minuciosamente corretas?
Que toda banana tem Z de potássio? Ninguém nos garante 100%. Nosso mundo é construído por meio de testes, probabilidades, experiências empíricas e assim por diante.
Sim. Tudo é relativo, e quando digo relativo, não é o relativo que você pensa. É mais complexo do que isso. E olha que eu nem comecei a questionar as pesquisas quantitativas/qualitativas sociais, principalmente as fundadas em entrevistas/ questionários ou diálogo participante. Resumo-as na frase do personagem protagonista da série (que leva o seu nome) Dr. House: “Everybody lies”.
O sábio conhecimento popular diz que “certeza, absoluta, só se tem da morte”. Esta é uma verdade pura. De resto, duvide. Duvide de tudo. Mas lembre-se: ainda bem que informaram que a caminha é um método contraceptivo com taxa de segurança de 98%. Será?



