Testando, um, dois, três!!!


terça-feira, 9 de agosto de 2016

Crônica 6 – 01/08

Escrever ou não escrever... eis a questão!

Fui chegando aos 6 anos de idade e o meu mundo se expandindo. Sua expansão fez com que eu pensasse se deveria ou não continuar a escrita das crônicas. Daqui, saio do meu mundo e vou cruzando-o com outros mundos que encontrei no meu caminho.

Todavia, não tenho obrigação de trazer aqui os fatos como foram. Nem teria como fazê-lo. Inclusive, lembrando-me de Cyro dos Anjos, nem os sentimentos são mais os mesmos. Começamos a ver o passado com outros olhos. Olhos mais passivos.

Assim, os próximos capítulos não têm obrigação nenhuma de se aterem a verdade pura ou trazer à tona diversas perspectivas. Trarei exclusivamente e parcialmente a minha.

Também não me cobrem gramática! Aqui, estou envolta de sentimentos memorialísticos! Sem grandes revisões. Gramática? Corrijo-a depois. Se corrigir muito, não posto.


A venda do meu pai

Dizem que lugar de criança não é trabalhando. Bem, quando me lembro dos meus tempos de infância, lá na venda do meu pai, cismo em discordar disso. Mas somente cismo.
Quando eu era criança, eu adorava ir pra lá. Chorava, dava birra e ia. Até que, um dia, aprendi a ir sozinha. Nossa! Como foi bom ter a liberdade de sair de casa, passar em frente ao Café Cometa, e descer aquela rua a ele paralela, na qual ficavam o asilo fantasmagórico e a casa da doidinha. Descer aquela rua até lá embaixo, na venda do meu pai.
Essa venda é uma velha conhecida do povo brejeiro. Nasceu um pouco antes de mim e, assim, tem mais de trinta anos. Considero meu pai um vitorioso por ter o seu negócio há tanto tempo.
Naquela época a venda – que não era e ainda não é somente uma venda, mas um bar e uma mercearia – era menor. Havia um depósito de duas portas do seu lado direito e um depósito no fundo, onde as pingas eram guardadas em barris de plástico.

Foto verídica. Vejam como era assustador!
No fundo do depósito que ficava ao lado,  havia uma parte muito estranha. Entre ele e a venda, tinha um corredor que se afunilava até não permitir que um gordinho passasse lá. Eu, pequenininha, passava relando. Lá, um lugar estranho e bagunçado. Sem teto. Havia sinais de fogo e eu ficava imaginando como aquele lugar tinha sido consumido pelas chamas. Hoje lá virou depósito também. Uma pena. Gostava dele mal assombrado.

Ainda neste depósito, na sua parede da frente, havia uma grande onça pintada em sua parede. Ficava escondida, lá no depósito. Adorava ir lá e vê-la e ficar imaginando como alguém foi capaz de desenhar algo tão bonito e perfeito. Quando pai passou tinta por cima, meu coração se partiu. Nunca mais vi a onça da parede.

Cliente, pai, outro cliente, meu irmão e Shanim
O outro depósito também tinha seus encantos. A portinha dele ficava para a rua. Era pequena. Além disso, pra entrar, tinha que descer uma escadinha. Muito legal! Sempre que pai resolvia ir lá, eu ia atrás. Não queria ficar olhando a venda. Lá tinha um cheiro característico dos sacos de estopa com arroz. Um cheiro que se misturava com o cheiro das pingas dos barris. De vez em quando, acompanhávamos meu pai na lida de encher as garrafas menores de pinga. Era tudo muito interessante. Colocava-se uma mangueira no barril e depois era preciso sugá-la. O líquido vinha espontaneamente. Se já fiz isso quando criança? Nunca contarei que sim ou que não.

Agora, na venda do meu pai, quando pequeninha, segundo minha mãe, vivia em cima dos sacos de arroz, dormindo. Meu pai naquela época sabiamente não vendia muitos chocolates – até porque eu iria comer todos! – mas tinha muita bala, pirulito, chiclete e refrigerante. Não sei como ainda tenho dentes na boca de tanto doce que comi! Ah, neste ponto, eu causava inveja em muita criança!

Às vezes, eu resolvia fazer a festa lá na rua. Enchia os bolsos de bala e chiclete e ia fazer o “fresh”. Acho que era esse o nome. Perto da venda, havia uma vizinha que tinha a calçada bem alta, tipo, um metro de altura. Subia lá e a criançada que morava lá perto ficava embaixo. Daí, bala voava e menino correndo para pegar. E voltava lá e pegava mais bala, mais chiclete... Era uma festa... Pegava muita bala escondido. Ainda bem que meu pai não tem facebook.

Além das crianças, lá também havia os bêbados. Os bêbados são ótimas companhias. Às vezes, ficava com meu pai até às 22h na venda. Naquela época, ela abria às 7h e ia até 22h, 23h. Abria de segunda a segunda, sem nenhum recesso. Nem recesso de doença. Até os meus 26 anos, vi meu pai não abrir a venda somente quando teve a tal da erisipela, isto é, durante uns três dias. Hoje, ele se dá o luxo de fechar depois das 12h, no domingo.

Voltando aos bêbados, esses tinham de muitos jeitos e feições. Tinha aquele da cerveja, o outro da pinga e do cigarro de rolo, outro do cigarro, cigarro mesmo. Uns mais e outros menos bêbados, eles debatiam sobre ­­política como os doutores e falavam sobre a vida na cidade e no mundo como ninguém. Ah, como gostava de ouvi-los! Quando o assunto era política, lado A e B lá se encontravam e batiam boca feio! Parecia que ia sair briga. Nunca saiu. Mas saiam diversos xingamentos, inclusive pessoais. Se xingavam, mas no outro dia estavam ali, se xingando novamente e debatendo política novamente. E eu a ouvi-los novamente.

Meu irmão, pai, eu, um cliente e,
escondido, Shanim, o gato.
Uma vez, um senhor que lá bebia, disse que os canhotos e as mulheres não iriam para o céu. Aí, o bate-boca foi comigo. Até porque, eu era mulher e canhota. Nem iria precisar de passaporte para sentir as chamas quentes do inferno. Achava injusto! Não teria nem a oportunidade de reverter o quadro? Não nego que fiquei impressionada, acreditei e tive medo. Chorei de medo!  E ele? Ele já morreu.

Outro cliente, uma vez, quando eu já era mais velha, ficou por muito tempo dizendo que iria se casar comigo. Todo santo dia enchia o meu saco. Eu apelava feio. Não vou citar nomes, para não comprometer ninguém. Mas teve um dia que cansei. Peguei um copo de água para jogar nele. Ele correu, eu corri atrás. A água foi para o lado, o copo, para outro! Kkkk, se quebrou na rua! Pai quis brigar, mas eu estava com o sangue tão quente que nem dei ouvidos. Queria era ter acertado o maldito copo no maldito!

Também é ilustre a figura, na venda de meu pai, o meu tio Claudir, que desde sempre trabalha lá, com ele. Meu tio não se casou até hoje. Eu ficava com dó (odeio essa expressão). Achava que ele tinha que casar! Todo mundo casou, porque ele seria do contra? Imaginava ele se casando com uma prima minha solteira ou com minha vizinha. Tentei se cupido. Jogava indiretas, mas nada! Até hoje ele tem um jeito ranzinza, atleticano de ser! Gagueja quando está nervoso. Ótima pessoa.

Pai e a venda atualmente
Também eu, hoje, ainda não me casei. Vejo as coisas, atualmente, por outro viés. O viés de que se pode ser feliz apenas consigo mesmo de companhia.

Agora preciso parar. Sobre a venda, tenho muitas histórias. Incontáveis. Inclusive da alegria que tive quando pai resolveu vender kinder Ovo! Na época, era um real. Ele vendeu só uma vez e eu... Eu fiz uma grande coleção de brinquedos.  Certo ele de não vender mais.


Até hoje a venda fica no mesmo lugar que nasceu, em sua esquina. Amo saber que ela ainda está lá. Que tal conhecê-la?

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A vida de Estrela 



Caso 2 - Estrela: A vida pode oferecer algo mais para ela?

Precisa-se de ADOTANTE ESPECIAL em Montes Claros
Para quem conhece a br-251, sabe que, dos caminhos que levam a Montes Claros, ela é a estrada mais perigosa. São buracos, desníveis, falta de 3ª pista... Sentimos todos os dias que ela e nossas vidas estão abandonadas pelo governo.

Porém, seu asfalto não vê, diariamente, somente o SEU abandono e deterioramento, mas também o abandono racional e consciente, de animais, que são soltos pelos donos para morrerem lentamente de fome, frio, sede, ou, como muito ocorre, atropelados.

Num desse ir e vir cotidiano, mas não comum, William, avistou, à beira da estrada, um animal que, aparentemente, estava atropelado.Ele poderia ter continuado o seu caminho, seguir a sua vida como de costume, mas não conseguiu ir em frente. Parou o carro, pôs o animal dentro dele e o levou consigo na tentativa de mudar o destino dele.

Era uma cadelinha branquinha com manchas marrons! Estava muito ferida e suja. Muito machucada.

Todavia, a história dessa pequena, que hoje, chama-se ESTRELA - talvez em homenagem às inúmeras que vemos perdidas no céu todos os dias, não teve um prognóstico favorável.

William conseguiu que, em Francisco Sá, um veterinário a consultasse.E, infelizmente,ele logo afirmou:

- Estrela não foi atropelada, ela é PARAPLÉGICA.

Acreditem, há uma ENORME possibilidade de Estrela ter sido abandonada paraplégica, para morrer lentamente à beira da 251, pois andando, ela não teria como chegar até lá.
As pernas e patas feridas, que se arranhavam e ainda se arranham no chão, não impedem que Estrela tente andar, alias é tentando andar que feridas profundas se abrem em suas pernas e patinhas.
William conseguiu uma casa vazia em Francisco Sá para que ela ficasse provisoriamente. Como ele mora em um apartamento em Montes Claros que é pequeno e já tem animais, não pode ficar com ela. Além disso, ele trabalha em tempo integral em Francisco Sá. Ele não tem possibilidade de cuidar de Estrela da forma que ela precisa.
Com muito esforço, ele cuida dela todos os dias nesta casa, na outra cidade. Lá ela recebe comida, água fresquinha, carinho, quando seu tutor temporário a visita. Mas infelizmente, Estrela tem ficado lá sozinha.

Acredito que o esforço de William não pode ser em vão!

Assim, venho, em nome desse anjo que a salvou, tentar encontrar um ADOTANTE ESPECIAL, que possa resignificar a vida de Estrela. Ela precisa brilhar. Precisa viver! Quer viver.
Esclareço que já tenho três animais especiais, um deles em Francisco Sá, além de mais três cães saudáveis e mais três gatos saudáveis. Infelizmente, para dar a vida que os que já tenho precisa, não posso adotar mais nenhum animal.
Agradeço a todos que lerem essa história e a compartilharem.





terça-feira, 2 de agosto de 2016

Crônica 5 (31/07) 

 A primeira vez... na escola!

Aos 4 anos, entrei na escola, na escolinha da tia Márcia, que até hoje ainda existe. Não me lembro bem como foi o meu primeiro dia de aula, como era o meu uniforme, mas lembro-me perfeitamente do universo que me rodeava.

Lá, tinha tudo que eu gostava! Tinha outras crianças, com as quais fiz amizade, tinha desenho todo dia – eu amava desenhar – tinha brinquedos diferentes – eu era apaixonada com uma casinha grandona que tinha lá – e tinha todo um universo imaginativo, que extrapola a minha cabecinha de criança e recriava um outro universo.

Das histórias da escola, lembro-me também, e agora com muita perfeição, das grades que a separavam da rua. Era uma pequena varanda de grandes. Grades com as quais encenei grandes micos para minha mãe.

Eram naquelas grades que eu me grudava para não ir embora da escola. Queria dormir lá. Chorava, esperneava, gritava, garrava e agarrava às grades, como se as suplicassem para que não me deixasse ir. Queria que elas me envolvessem em seus braço-grades finos, me acolhessem e me deixassem ali!

A argumentação era precisa: “mãe, aqui tem colchãozinho! Posso dormir aqui sim!”. Queria ficar lá, com os desenhos, com a casinha, com as tartarugas... Era o meu mundo encantado!

Na mesma época, minha prima e melhor amiga também entrou na escolinha. Mas ela não gostou muito de lá. Foi sozinha e chorou, foi com a mãe – que eu lembro que um dia ficou lá – e chorou, e fiquei com ela e ela chorou! Não entendia como ela não queria ficar lá, se eu estava lá (kkkk, risos)! Criança sempre se acha muito, né! Mas eu era sua companheirinha e tava lá.

Mas nem só de escolinha vive uma criança. Quando não tinha escolinha, eu também tinha outro refúgio, meu labirinto, meu acolhedor, meu outro universo encantado: a venda do meu pai...


E aí, é história para a próxima crônica.