Crônica 6 – 01/08
Escrever ou não
escrever... eis a questão!
Fui chegando aos 6 anos de idade
e o meu mundo se expandindo. Sua expansão fez com que eu pensasse se deveria ou
não continuar a escrita das crônicas. Daqui, saio do meu mundo e vou cruzando-o
com outros mundos que encontrei no meu caminho.
Todavia, não tenho obrigação de
trazer aqui os fatos como foram. Nem teria como fazê-lo. Inclusive,
lembrando-me de Cyro dos Anjos, nem os sentimentos são mais os mesmos.
Começamos a ver o passado com outros olhos. Olhos mais passivos.
Assim, os próximos capítulos não têm
obrigação nenhuma de se aterem a verdade pura ou trazer à tona diversas
perspectivas. Trarei exclusivamente e parcialmente a minha.
Também não me cobrem gramática!
Aqui, estou envolta de sentimentos memorialísticos! Sem grandes revisões.
Gramática? Corrijo-a depois. Se corrigir muito, não posto.
A venda do meu pai
Dizem que lugar de criança não é
trabalhando. Bem, quando me lembro dos meus tempos de infância, lá na venda do
meu pai, cismo em discordar disso. Mas somente cismo.
Quando eu era criança, eu adorava
ir pra lá. Chorava, dava birra e ia. Até que, um dia, aprendi a ir sozinha.
Nossa! Como foi bom ter a liberdade de sair de casa, passar em frente ao Café
Cometa, e descer aquela rua a ele paralela, na qual ficavam o asilo
fantasmagórico e a casa da doidinha. Descer aquela rua até lá embaixo, na venda
do meu pai.
Essa venda é uma velha conhecida
do povo brejeiro. Nasceu um pouco antes de mim e, assim, tem mais de trinta
anos. Considero meu pai um vitorioso por ter o seu negócio há tanto tempo.
Naquela época a venda – que não
era e ainda não é somente uma venda, mas um bar e uma mercearia – era menor. Havia
um depósito de duas portas do seu lado direito e um depósito no fundo, onde as
pingas eram guardadas em barris de plástico.
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| Foto verídica. Vejam como era assustador! |
Ainda neste depósito, na sua
parede da frente, havia uma grande onça pintada em sua parede. Ficava
escondida, lá no depósito. Adorava ir lá e vê-la e ficar imaginando como alguém
foi capaz de desenhar algo tão bonito e perfeito. Quando pai passou tinta por
cima, meu coração se partiu. Nunca mais vi a onça da parede.
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| Cliente, pai, outro cliente, meu irmão e Shanim |
Agora, na venda do meu pai,
quando pequeninha, segundo minha mãe, vivia em cima dos sacos de arroz,
dormindo. Meu pai naquela época sabiamente não vendia muitos chocolates – até porque
eu iria comer todos! – mas tinha muita bala, pirulito, chiclete e refrigerante.
Não sei como ainda tenho dentes na boca de tanto doce que comi! Ah, neste
ponto, eu causava inveja em muita criança!
Às vezes, eu resolvia fazer a
festa lá na rua. Enchia os bolsos de bala e chiclete e ia fazer o “fresh”. Acho
que era esse o nome. Perto da venda, havia uma vizinha que tinha a calçada bem
alta, tipo, um metro de altura. Subia lá e a criançada que morava lá perto
ficava embaixo. Daí, bala voava e menino correndo para pegar. E voltava lá e
pegava mais bala, mais chiclete... Era uma festa... Pegava muita bala
escondido. Ainda bem que meu pai não tem facebook.
Além das crianças, lá também
havia os bêbados. Os bêbados são ótimas companhias. Às vezes, ficava com meu
pai até às 22h na venda. Naquela época, ela abria às 7h e ia até 22h, 23h.
Abria de segunda a segunda, sem nenhum recesso. Nem recesso de doença. Até os
meus 26 anos, vi meu pai não abrir a venda somente quando teve a tal da erisipela,
isto é, durante uns três dias. Hoje, ele se dá o luxo de fechar depois das 12h,
no domingo.
Voltando aos bêbados, esses
tinham de muitos jeitos e feições. Tinha aquele da cerveja, o outro da pinga e
do cigarro de rolo, outro do cigarro, cigarro mesmo. Uns mais e outros menos
bêbados, eles debatiam sobre política como os doutores e falavam sobre a vida
na cidade e no mundo como ninguém. Ah, como gostava de ouvi-los! Quando o
assunto era política, lado A e B lá se encontravam e batiam boca feio! Parecia
que ia sair briga. Nunca saiu. Mas saiam diversos xingamentos, inclusive
pessoais. Se xingavam, mas no outro dia estavam ali, se xingando novamente e
debatendo política novamente. E eu a ouvi-los novamente.
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| Meu irmão, pai, eu, um cliente e, escondido, Shanim, o gato. |
Outro cliente, uma vez, quando eu
já era mais velha, ficou por muito tempo dizendo que iria se casar comigo. Todo
santo dia enchia o meu saco. Eu apelava feio. Não vou citar nomes, para não
comprometer ninguém. Mas teve um dia que cansei. Peguei um copo de água para
jogar nele. Ele correu, eu corri atrás. A água foi para o lado, o copo, para
outro! Kkkk, se quebrou na rua! Pai quis brigar, mas eu estava com o sangue tão
quente que nem dei ouvidos. Queria era ter acertado o maldito copo no maldito!
Também é ilustre a figura, na
venda de meu pai, o meu tio Claudir, que desde sempre trabalha lá, com ele. Meu
tio não se casou até hoje. Eu ficava com dó (odeio essa expressão). Achava que
ele tinha que casar! Todo mundo casou, porque ele seria do contra? Imaginava
ele se casando com uma prima minha solteira ou com minha vizinha. Tentei se
cupido. Jogava indiretas, mas nada! Até hoje ele tem um jeito ranzinza,
atleticano de ser! Gagueja quando está nervoso. Ótima pessoa.
Também eu, hoje, ainda não me
casei. Vejo as coisas, atualmente, por outro viés. O viés de que se pode ser
feliz apenas consigo mesmo de companhia.
Agora preciso parar. Sobre a venda, tenho muitas histórias.
Incontáveis. Inclusive da alegria que tive quando pai resolveu vender kinder
Ovo! Na época, era um real. Ele vendeu só uma vez e eu... Eu fiz uma grande
coleção de brinquedos. Certo ele de não
vender mais.
Até hoje a venda fica no mesmo lugar que nasceu, em sua
esquina. Amo saber que ela ainda está lá. Que tal conhecê-la?







