Crônica 2 - 28/07:O homem do saco preto
Quer dizer... do carro preto!!!
Desde ontem, borbulhou a minha cabeça em busca de uma
história que rememorasse meus primeiros anos de vida. Como escrever sobre uma
fase da qual nada me lembro? Uma fase na qual estava envolta de pessoas
cuidando de mim e de meu bem estar, mas que, infelizmente nem eu e nem vocês se
lembram (da de vocês). Gostaria de me lembrar do que me fazer rir
escandalosamente, como os bebês riem.
Você diz “blublublu” inúmeras vezes, repetidamente, e eles
disparam o motor do riso de modo tão infinito que parecem que vão se desfazer
em risos, lágrimas-risos.
Apesar de a memória daquele momento não mais existir, elas
ecoaram em minha mente, pelas vozes daqueles que me amavam e que cuidavam de
mim. Uma delas, que ocorreu em torno do meu um ano de idade, fez a minha mãe
desesperar-se.
Era comum, nas cidades do interior, as lendas urbanas sobre
raptos de crianças para o mercado negro de órgãos, adoção, e por aí vai. Quem é
de cidade pequena lembra: havia épocas que dava seis horas da noite, escurecia,
se um carro preto passasse, era motivo de pânico geral entre a galerinha. Era o
carro preto, que passava devagarzinho e sequestrava as criancinhas para a retirada
dos seus preciosos órgãos.
Tinha também o homem do saco, os andarilhos que sempre de
vez em quando apareciam para assustar a galerinha. Mas eu, particularmente,
tinha medo do carro preto.
Pois é, numa bela noite, na qual eu dormia feliz com meus
pais em sua cama, uma sensação rompeu o sono de minha mãe e a fez acordar. Ela
olhou para o cantinho que eu dormia, e eu não estava lá.
Minha mãe havia sofrido uma forte hemorragia quando nasci.
Quase morreu. Teve muito enjoo quando estava grávida de mim. Apesar disso tudo
que passou, naquele momento, eu era o seu bem mais precioso e havia
desaparecido.
Assim, um grito deve ter acordado meu pai de seu pesado
sono. Eu tinha sumido, tinha sumido, onde estava eu? Acho que o desespero era
porque naquela época eu nem andava direito ainda, ainda mais, descer de uma
cama! Onde estava eu, onde eu estava?
O guarda-roupa foi revirado, a casa vasculhada, os cômodos,
tudo! Onde estava eu?
Desespero.
Desespero inesperado. O esperado! Estava eu escondidinha,
debaixo da cama, dormindo o meu gostoso soninho. Nada, nada preocupada. Será
que caí? Como fui parar lá? Não sei... Mistério.
Foi um alívio para os meus pais me encontrarem. Nenhum carro
preto ou homem do saco havia me levado. Mas a partir daí sabiam, estava para
vir um ser atrevido e levado!
Deu uma aflorada, mas foi essa a história que minha mãe me
contou.

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