Testando, um, dois, três!!!


quarta-feira, 5 de outubro de 2016



Não queria, mas estou gritando por dentro. Gritando, literalmente.
Raiva, indignação, falta de paciência, nervos à flor da pele. Sinal dos tempos?
Sim, penso sobre o tempo também. Mas, de uns dias para cá, tudo parece conspirar para dar errado.

A cabeça dói. Quero que os deuses parem. Já basta! It’s enough! Que língua falam os deuses?
Preciso aprendê-la e me prender naquele tempo de vacas gordas, prosperidade. Fé?


Por favor, amanhã não abalem meu coração.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Crônica 6 – 01/08

Escrever ou não escrever... eis a questão!

Fui chegando aos 6 anos de idade e o meu mundo se expandindo. Sua expansão fez com que eu pensasse se deveria ou não continuar a escrita das crônicas. Daqui, saio do meu mundo e vou cruzando-o com outros mundos que encontrei no meu caminho.

Todavia, não tenho obrigação de trazer aqui os fatos como foram. Nem teria como fazê-lo. Inclusive, lembrando-me de Cyro dos Anjos, nem os sentimentos são mais os mesmos. Começamos a ver o passado com outros olhos. Olhos mais passivos.

Assim, os próximos capítulos não têm obrigação nenhuma de se aterem a verdade pura ou trazer à tona diversas perspectivas. Trarei exclusivamente e parcialmente a minha.

Também não me cobrem gramática! Aqui, estou envolta de sentimentos memorialísticos! Sem grandes revisões. Gramática? Corrijo-a depois. Se corrigir muito, não posto.


A venda do meu pai

Dizem que lugar de criança não é trabalhando. Bem, quando me lembro dos meus tempos de infância, lá na venda do meu pai, cismo em discordar disso. Mas somente cismo.
Quando eu era criança, eu adorava ir pra lá. Chorava, dava birra e ia. Até que, um dia, aprendi a ir sozinha. Nossa! Como foi bom ter a liberdade de sair de casa, passar em frente ao Café Cometa, e descer aquela rua a ele paralela, na qual ficavam o asilo fantasmagórico e a casa da doidinha. Descer aquela rua até lá embaixo, na venda do meu pai.
Essa venda é uma velha conhecida do povo brejeiro. Nasceu um pouco antes de mim e, assim, tem mais de trinta anos. Considero meu pai um vitorioso por ter o seu negócio há tanto tempo.
Naquela época a venda – que não era e ainda não é somente uma venda, mas um bar e uma mercearia – era menor. Havia um depósito de duas portas do seu lado direito e um depósito no fundo, onde as pingas eram guardadas em barris de plástico.

Foto verídica. Vejam como era assustador!
No fundo do depósito que ficava ao lado,  havia uma parte muito estranha. Entre ele e a venda, tinha um corredor que se afunilava até não permitir que um gordinho passasse lá. Eu, pequenininha, passava relando. Lá, um lugar estranho e bagunçado. Sem teto. Havia sinais de fogo e eu ficava imaginando como aquele lugar tinha sido consumido pelas chamas. Hoje lá virou depósito também. Uma pena. Gostava dele mal assombrado.

Ainda neste depósito, na sua parede da frente, havia uma grande onça pintada em sua parede. Ficava escondida, lá no depósito. Adorava ir lá e vê-la e ficar imaginando como alguém foi capaz de desenhar algo tão bonito e perfeito. Quando pai passou tinta por cima, meu coração se partiu. Nunca mais vi a onça da parede.

Cliente, pai, outro cliente, meu irmão e Shanim
O outro depósito também tinha seus encantos. A portinha dele ficava para a rua. Era pequena. Além disso, pra entrar, tinha que descer uma escadinha. Muito legal! Sempre que pai resolvia ir lá, eu ia atrás. Não queria ficar olhando a venda. Lá tinha um cheiro característico dos sacos de estopa com arroz. Um cheiro que se misturava com o cheiro das pingas dos barris. De vez em quando, acompanhávamos meu pai na lida de encher as garrafas menores de pinga. Era tudo muito interessante. Colocava-se uma mangueira no barril e depois era preciso sugá-la. O líquido vinha espontaneamente. Se já fiz isso quando criança? Nunca contarei que sim ou que não.

Agora, na venda do meu pai, quando pequeninha, segundo minha mãe, vivia em cima dos sacos de arroz, dormindo. Meu pai naquela época sabiamente não vendia muitos chocolates – até porque eu iria comer todos! – mas tinha muita bala, pirulito, chiclete e refrigerante. Não sei como ainda tenho dentes na boca de tanto doce que comi! Ah, neste ponto, eu causava inveja em muita criança!

Às vezes, eu resolvia fazer a festa lá na rua. Enchia os bolsos de bala e chiclete e ia fazer o “fresh”. Acho que era esse o nome. Perto da venda, havia uma vizinha que tinha a calçada bem alta, tipo, um metro de altura. Subia lá e a criançada que morava lá perto ficava embaixo. Daí, bala voava e menino correndo para pegar. E voltava lá e pegava mais bala, mais chiclete... Era uma festa... Pegava muita bala escondido. Ainda bem que meu pai não tem facebook.

Além das crianças, lá também havia os bêbados. Os bêbados são ótimas companhias. Às vezes, ficava com meu pai até às 22h na venda. Naquela época, ela abria às 7h e ia até 22h, 23h. Abria de segunda a segunda, sem nenhum recesso. Nem recesso de doença. Até os meus 26 anos, vi meu pai não abrir a venda somente quando teve a tal da erisipela, isto é, durante uns três dias. Hoje, ele se dá o luxo de fechar depois das 12h, no domingo.

Voltando aos bêbados, esses tinham de muitos jeitos e feições. Tinha aquele da cerveja, o outro da pinga e do cigarro de rolo, outro do cigarro, cigarro mesmo. Uns mais e outros menos bêbados, eles debatiam sobre ­­política como os doutores e falavam sobre a vida na cidade e no mundo como ninguém. Ah, como gostava de ouvi-los! Quando o assunto era política, lado A e B lá se encontravam e batiam boca feio! Parecia que ia sair briga. Nunca saiu. Mas saiam diversos xingamentos, inclusive pessoais. Se xingavam, mas no outro dia estavam ali, se xingando novamente e debatendo política novamente. E eu a ouvi-los novamente.

Meu irmão, pai, eu, um cliente e,
escondido, Shanim, o gato.
Uma vez, um senhor que lá bebia, disse que os canhotos e as mulheres não iriam para o céu. Aí, o bate-boca foi comigo. Até porque, eu era mulher e canhota. Nem iria precisar de passaporte para sentir as chamas quentes do inferno. Achava injusto! Não teria nem a oportunidade de reverter o quadro? Não nego que fiquei impressionada, acreditei e tive medo. Chorei de medo!  E ele? Ele já morreu.

Outro cliente, uma vez, quando eu já era mais velha, ficou por muito tempo dizendo que iria se casar comigo. Todo santo dia enchia o meu saco. Eu apelava feio. Não vou citar nomes, para não comprometer ninguém. Mas teve um dia que cansei. Peguei um copo de água para jogar nele. Ele correu, eu corri atrás. A água foi para o lado, o copo, para outro! Kkkk, se quebrou na rua! Pai quis brigar, mas eu estava com o sangue tão quente que nem dei ouvidos. Queria era ter acertado o maldito copo no maldito!

Também é ilustre a figura, na venda de meu pai, o meu tio Claudir, que desde sempre trabalha lá, com ele. Meu tio não se casou até hoje. Eu ficava com dó (odeio essa expressão). Achava que ele tinha que casar! Todo mundo casou, porque ele seria do contra? Imaginava ele se casando com uma prima minha solteira ou com minha vizinha. Tentei se cupido. Jogava indiretas, mas nada! Até hoje ele tem um jeito ranzinza, atleticano de ser! Gagueja quando está nervoso. Ótima pessoa.

Pai e a venda atualmente
Também eu, hoje, ainda não me casei. Vejo as coisas, atualmente, por outro viés. O viés de que se pode ser feliz apenas consigo mesmo de companhia.

Agora preciso parar. Sobre a venda, tenho muitas histórias. Incontáveis. Inclusive da alegria que tive quando pai resolveu vender kinder Ovo! Na época, era um real. Ele vendeu só uma vez e eu... Eu fiz uma grande coleção de brinquedos.  Certo ele de não vender mais.


Até hoje a venda fica no mesmo lugar que nasceu, em sua esquina. Amo saber que ela ainda está lá. Que tal conhecê-la?

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A vida de Estrela 



Caso 2 - Estrela: A vida pode oferecer algo mais para ela?

Precisa-se de ADOTANTE ESPECIAL em Montes Claros
Para quem conhece a br-251, sabe que, dos caminhos que levam a Montes Claros, ela é a estrada mais perigosa. São buracos, desníveis, falta de 3ª pista... Sentimos todos os dias que ela e nossas vidas estão abandonadas pelo governo.

Porém, seu asfalto não vê, diariamente, somente o SEU abandono e deterioramento, mas também o abandono racional e consciente, de animais, que são soltos pelos donos para morrerem lentamente de fome, frio, sede, ou, como muito ocorre, atropelados.

Num desse ir e vir cotidiano, mas não comum, William, avistou, à beira da estrada, um animal que, aparentemente, estava atropelado.Ele poderia ter continuado o seu caminho, seguir a sua vida como de costume, mas não conseguiu ir em frente. Parou o carro, pôs o animal dentro dele e o levou consigo na tentativa de mudar o destino dele.

Era uma cadelinha branquinha com manchas marrons! Estava muito ferida e suja. Muito machucada.

Todavia, a história dessa pequena, que hoje, chama-se ESTRELA - talvez em homenagem às inúmeras que vemos perdidas no céu todos os dias, não teve um prognóstico favorável.

William conseguiu que, em Francisco Sá, um veterinário a consultasse.E, infelizmente,ele logo afirmou:

- Estrela não foi atropelada, ela é PARAPLÉGICA.

Acreditem, há uma ENORME possibilidade de Estrela ter sido abandonada paraplégica, para morrer lentamente à beira da 251, pois andando, ela não teria como chegar até lá.
As pernas e patas feridas, que se arranhavam e ainda se arranham no chão, não impedem que Estrela tente andar, alias é tentando andar que feridas profundas se abrem em suas pernas e patinhas.
William conseguiu uma casa vazia em Francisco Sá para que ela ficasse provisoriamente. Como ele mora em um apartamento em Montes Claros que é pequeno e já tem animais, não pode ficar com ela. Além disso, ele trabalha em tempo integral em Francisco Sá. Ele não tem possibilidade de cuidar de Estrela da forma que ela precisa.
Com muito esforço, ele cuida dela todos os dias nesta casa, na outra cidade. Lá ela recebe comida, água fresquinha, carinho, quando seu tutor temporário a visita. Mas infelizmente, Estrela tem ficado lá sozinha.

Acredito que o esforço de William não pode ser em vão!

Assim, venho, em nome desse anjo que a salvou, tentar encontrar um ADOTANTE ESPECIAL, que possa resignificar a vida de Estrela. Ela precisa brilhar. Precisa viver! Quer viver.
Esclareço que já tenho três animais especiais, um deles em Francisco Sá, além de mais três cães saudáveis e mais três gatos saudáveis. Infelizmente, para dar a vida que os que já tenho precisa, não posso adotar mais nenhum animal.
Agradeço a todos que lerem essa história e a compartilharem.





terça-feira, 2 de agosto de 2016

Crônica 5 (31/07) 

 A primeira vez... na escola!

Aos 4 anos, entrei na escola, na escolinha da tia Márcia, que até hoje ainda existe. Não me lembro bem como foi o meu primeiro dia de aula, como era o meu uniforme, mas lembro-me perfeitamente do universo que me rodeava.

Lá, tinha tudo que eu gostava! Tinha outras crianças, com as quais fiz amizade, tinha desenho todo dia – eu amava desenhar – tinha brinquedos diferentes – eu era apaixonada com uma casinha grandona que tinha lá – e tinha todo um universo imaginativo, que extrapola a minha cabecinha de criança e recriava um outro universo.

Das histórias da escola, lembro-me também, e agora com muita perfeição, das grades que a separavam da rua. Era uma pequena varanda de grandes. Grades com as quais encenei grandes micos para minha mãe.

Eram naquelas grades que eu me grudava para não ir embora da escola. Queria dormir lá. Chorava, esperneava, gritava, garrava e agarrava às grades, como se as suplicassem para que não me deixasse ir. Queria que elas me envolvessem em seus braço-grades finos, me acolhessem e me deixassem ali!

A argumentação era precisa: “mãe, aqui tem colchãozinho! Posso dormir aqui sim!”. Queria ficar lá, com os desenhos, com a casinha, com as tartarugas... Era o meu mundo encantado!

Na mesma época, minha prima e melhor amiga também entrou na escolinha. Mas ela não gostou muito de lá. Foi sozinha e chorou, foi com a mãe – que eu lembro que um dia ficou lá – e chorou, e fiquei com ela e ela chorou! Não entendia como ela não queria ficar lá, se eu estava lá (kkkk, risos)! Criança sempre se acha muito, né! Mas eu era sua companheirinha e tava lá.

Mas nem só de escolinha vive uma criança. Quando não tinha escolinha, eu também tinha outro refúgio, meu labirinto, meu acolhedor, meu outro universo encantado: a venda do meu pai...


E aí, é história para a próxima crônica. 


domingo, 31 de julho de 2016

Crônica 4  - 31/07
Olé!


Uma filha muito atentada era o que minha mãe dizia ter. Não sei se concordo, mas as histórias dela me fazem rir muito das coisas que fiz. Uma delas foi no bar de Seu Waldir.
Na época, ainda não era um bar, acho que era mais um restaurante, tendo em vista que os acontecimentos ocorreram quando meu pai e minha mãe lá estavam comendo (almoçando). Das minhas memórias próprias, lembro-me de lá como um bar. Um bar que hoje não existe mais.
Para ir para a venda do meu pai, precisava passar lá em frente. Passei lá muitas vezes durante todos esses anos. A impressão que montei, ao longo desses anos, é de um bar espaçoso, de portas marrons e que não tinha muitos produtos – tendo em vista a venda de pai, realmente lá não tinha muitos produtos – mas tinha sinuca, e pai nunca teve sinuca
.
Bem, imagino eu que devia ser um dia de domingo agradável, no qual esses pais recém-casados iam passear e almoçar fora com sua filhinha. Também imagino que tudo corria até bem, meu pai e minha mãe almoçando fora, lá no Seu Waldir.
E... voilà! Tudo corria bem... até que... o forro que cobria a mesa moveu-se, a partir das minhas mãos miudinhas, que o puxaram até que tudo fosse ao chão! T-U-D-O!!!! Comida, bebida, prato!
Tudo voou, voou até atingir o bendito chão!
Será que eu achei que iria puxar o forro e as coisas ficariam sobre a mesa, sem cair? Daquele jeito que os mágicos fazem?
Se era esse o desejo, deu errado! E bem errado! Até hoje minha mãe reclama que era impossível sair comigo! Muito danada! Muito danada, impossível!!!

Crônica 3 - 29/07/2016 - O armário e o rádio





Dentre as memórias, tão distantes no tempo, uma parte é recontada por outros, mas outra é minha. Qual tanto elas e eu tenho de verdade e imaginação, não sei. O tempo passou e, quando ele passa, tudo tende a virar verdade.
Todavia, o material guarda provas e contra provas não há argumentos. Somente fatos. O rádio prova isso. Dentro do armário da sala de casa, há um antigo rádio toca fitas. Um rádio toca fitas guardado e sem uso, provavelmente há 28 anos. O motivo do desuso é óbvio: ele não funciona mais. Já não imprime ondas sonoras no ar. Calou-se.

Mas os motivos que o calaram, aliás, o motivo é peculiar. sei que ele ele já cantou muito e me embalou os quadris pueris. Tocava a Xuxa... Sim... a nova Hebe Camargo das segundas à noite da Record! Era um hilarilarie oh, oh, oh, repetidas, infinitas vezes. Repetidas e infinitas vezes. Repetidas e infinitas vezes.
Mas foi numa brincadeira de índio que nunca mais cantou. Ao invés de Xuxa cantar alto, ele começou a sentir um barulho diferente... não era xu, xu, xu, xa, xa, xa. Era Xiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.xixi.
Por que cargas d'água eu fiz xixi nele, não sei. Acho até hoje que eu estava dançando em torno dele, como sempre e, na dança do índio, quis fazer chuva!... Phillips calou-se. E calado está até hoje.
Mas o barulho naquela época não vinha somente do rádio. Vinha também das panelas que rolavam do armário de três portas da cozinha... Naquela época era um costume rotineiro eu entrar pela primeira porta dele e sair pela terceira... Panelas rolavam, minha mãe fazia almoço irada, mas eu, eu imaginava que estava desfilando!!!Desfilando?!?!?!?!?
Amassadas, as panelas sobreviveram.
Phillips, calado, também.

quinta-feira, 28 de julho de 2016


Crônica 2 - 28/07:O homem do saco preto

Quer dizer... do carro preto!!!

Desde ontem, borbulhou a minha cabeça em busca de uma história que rememorasse meus primeiros anos de vida. Como escrever sobre uma fase da qual nada me lembro? Uma fase na qual estava envolta de pessoas cuidando de mim e de meu bem estar, mas que, infelizmente nem eu e nem vocês se lembram (da de vocês). Gostaria de me lembrar do que me fazer rir escandalosamente, como os bebês riem.

Você diz “blublublu” inúmeras vezes, repetidamente, e eles disparam o motor do riso de modo tão infinito que parecem que vão se desfazer em risos, lágrimas-risos.

Apesar de a memória daquele momento não mais existir, elas ecoaram em minha mente, pelas vozes daqueles que me amavam e que cuidavam de mim. Uma delas, que ocorreu em torno do meu um ano de idade, fez a minha mãe desesperar-se.

Era comum, nas cidades do interior, as lendas urbanas sobre raptos de crianças para o mercado negro de órgãos, adoção, e por aí vai. Quem é de cidade pequena lembra: havia épocas que dava seis horas da noite, escurecia, se um carro preto passasse, era motivo de pânico geral entre a galerinha. Era o carro preto, que passava devagarzinho e sequestrava as criancinhas para a retirada dos seus preciosos órgãos.

Tinha também o homem do saco, os andarilhos que sempre de vez em quando apareciam para assustar a galerinha. Mas eu, particularmente, tinha medo do carro preto.

Pois é, numa bela noite, na qual eu dormia feliz com meus pais em sua cama, uma sensação rompeu o sono de minha mãe e a fez acordar. Ela olhou para o cantinho que eu dormia, e eu não estava lá.

Minha mãe havia sofrido uma forte hemorragia quando nasci. Quase morreu. Teve muito enjoo quando estava grávida de mim. Apesar disso tudo que passou, naquele momento, eu era o seu bem mais precioso e havia desaparecido.

Assim, um grito deve ter acordado meu pai de seu pesado sono. Eu tinha sumido, tinha sumido, onde estava eu? Acho que o desespero era porque naquela época eu nem andava direito ainda, ainda mais, descer de uma cama! Onde estava eu, onde eu estava?

O guarda-roupa foi revirado, a casa vasculhada, os cômodos, tudo! Onde estava eu?
Desespero.

Desespero inesperado. O esperado! Estava eu escondidinha, debaixo da cama, dormindo o meu gostoso soninho. Nada, nada preocupada. Será que caí? Como fui parar lá? Não sei... Mistério.

Foi um alívio para os meus pais me encontrarem. Nenhum carro preto ou homem do saco havia me levado. Mas a partir daí sabiam, estava para vir um ser atrevido e levado!


Deu uma aflorada, mas foi essa a história que minha mãe me contou.




quarta-feira, 27 de julho de 2016

Preâmbulo?

Faltam 30 dias para os meus 30 anos.
São três décadas. São várias vidas que vivi em uma única. São muitos momentos que esqueci e outros os quais não me esquecerei jamais.

Às 2:50 do dia 27 de agosto, dia ímpar, à gosto de Deus, nasci. Filha primogênita de Seu Elpídio e Dona Antônia, venci a minha primeira batalha: ser a Usain Bolt dos espermatozoides, aquela, diferentona, que iria por nove meses habitar um útero.

Imagino que, naquele casal, após exatos 9 meses de casamento – acreditem! – havia uma expectativa muito grande. Um amor incondicional e uma responsabilidade que segue até os dias de hoje.

Pergunto-me sempre por que vim. Por que eu, do jeito que sou, com minhas vontades, minhas tristezas, minhas alegrias e, principalmente, os meus sonhos. Por que eu que tenho a possibilidade de habitar este mundo num período de cerca de 100 anos e, um dia, deste período, morrer, como muitos que já se foram.

À beira dos trinta, é estranho perceber que você não pode mais ser uma criança. Sentir suas mãos pequenas, a pela sedosa, e ver, pouco a pouco, as roupas não cabendo mais, os chinelos se perdendo.

À beira dos trinta também não se pode mais viver a adolescência. Inclusive, os planos que ela trazia e que também já se passaram.

Destes 30% gastos e que não voltam mais, é preciso repensar os anos que se seguem. O que ser, como ser, com quem ser. Já não temos/tenho todo o tempo do mundo, como dizia Renato.

Propus-me a escrever, durante estes 30 dias, uma reflexão por dia. Assim, 30 textos que irão me expor. O que me assusta. 30 reflexões que gostaria de chamar de crônicas.


Vamos ver no que dá!